OVOS EM DÓRIA SÃO MAU SINAL

por Ed Wilson Araujo, 9 agosto 2017

Quem atirou ovos nos prefeitos de São Paulo (João Dória/PSDB) e Salvador (ACM Neto/DEM) cometeu um equívoco ou é anarquista e tem suas motivações respeitáveis. Militante com o mínimo de esclarecimento e comando partidário não cometeria tamanha estultice.

Por três motivos: 1) atropela as regras mínimas da convivência democrática; 2) pode gerar uma onda e transformar qualquer político em alvo de agressões; 3) dá margem para o agredido fazer do episódio  palanque de campanha.

Foi o que sacou João Dória. Após o constrangimento, veio a glória. O tucano pôs a clara dos ovos no liquidificador da política e fez um omelete de pré-campanha. De quebra, culpou os petistas, tripudiou sobre a derrota de Fernando Hadad em 2016 e cantou vitória antecipada sobre Lula em 2018.

Os ovos eram tudo que os tucanos queriam em meio à decadência total de Aécio Neves, a ponto de transformar o frangote João Dória em um galo de briga gerado no ovo podre de supostos petistas.

Mas, para além da disputa entre PT e PSDB, o episódio dos ovos é um precedente ruim nestes tempos já sombrios, reveladores da despolitização do país.

Nenhum político, nem mesmo Jair Bolsonaro, com todas as suas insanidades, deve ser hostilizado com agressões físicas. Ele merece, como qualquer outro, ser violentado e repreendido no debate político e no voto.

Se o episódio de Salvador começar a ser replicado, abriremos um precedente perigoso. Desde Thomas Hobbes há ensinamentos sobre como superar a guerra de todos contra todos e colocar as divergências no leito da política.

O que temos de melhor, com seus defeitos, é a democracia. Não podemos deturpá-la, levando às radicalizações que beiram o extremismo, colocando o fundamentalismo acima e à frente dos argumentos. O diálogo segue sendo o melhor caminho para resolver os conflitos, com base na racionalidade.

Eu não me regozijo com a chuva de ovos sobre João Dória e ACM Neto. Trata-se de uma agressão que põe em risco qualquer personagem ou figura pública.

Imaginemos outras situações. Lula enxovalhado com tomates vermelhos, Marina Silva alvejada de lama de manguezal, Jair Bolsonaro besuntado com excrementos etc…

Onde vamos parar se cada facção política agredir seus adversários com objetos?!

Qual será o cenário da eleição de 2018 se cada time partidário tomar a iniciativa de fazer “justiça” com as próprias mãos?!

Creio que a agressão física não é um bom caminho neste momento de fragilidade democrática.

O Brasil precisa colocar a política no seu devido lugar, valorizando a disputa de ideias, a batalha eleitoral limpa, o argumento e a organização partidária, o trabalho de base, a formação de quadros, o esclarecimento da militância e a mobilização permanente.

Em vez de chuva de ovos precisamos de uma ampla reforma política, com todos os ingredientes necessários à reestruturação do sistema eleitoral e partidário, que diminua o poder da “mão invisível” do mercado sobre as decisões de interesse da coletividade.

Sou favorável à pressão “violenta” sobre os parlamentares e gestores que atuam contra a cidadania. Por “violenta” entenda-se acampamentos e piquetes nas portas dos condomínios dos políticos, pichações, faixas e cartazes denunciando os posicionamentos dos representantes do povo, recepção “calorosa” nos aeroportos, denúncias nas redes sociais etc, mas nunca agressão física.

Esta, abre um precedente para a guerra de todos contra todos e a ruptura democrática.

Precisamos ocupar as ruas com garra, criatividade e violência simbólica para denunciar a ópera bufa dos tribunais e parlamentos golpistas. As ruas merecem a nossa épica, à imagem e semelhança das marchas e comícios das Diretas Já e de tantas outras experiências de mobilização e força popular que ensejaram a racionalidade e o debate de ideias.

A chuva de ovos deu a João Dória o que ele não tinha. De repente, um tucano tão inexpressivo fez do episódio um omelete de democracia e por alguns segundos virou galo de briga.

E o Brasil, neste caminho, corre o risco de virar um puleiro.

Imagem: capturada a partir de vídeo distribuído na internet

2 thoughts on “OVOS EM DÓRIA SÃO MAU SINAL

  1. Isso mesmo, professor. Não podemos ceder a tentativas de regressão a tempos bicudos. Avançamos no processo democrático para que diferenças sejam resolvidas na argumentação da esfera pública. Fora disso, não dá.

  2. Sinto exatamente isso narrado por ti. Ovos não ocupam espaços políticas. Quando jogados em alguém, podem até significar descontentamento, mas na mesma medida ou um pouco mais, significam desrespeito, despolitização e oportunidade do alvo utilizar-se do fato para se elevar para além do que é.

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