BONS EXEMPLOS

Eloy Melonio, escritor, compositor e professor de Inglês

O que podemos copiar dos outros?

Postei um vídeo num grupo do WhatsApp mostrando uma eficiente ação da prefeitura de Tóquio. Tinha por intenção destacar a forma eficiente como os japoneses resolviam seus problemas estruturais. E sugeri que copiássemos esse modelo de gestão.

Atiradores de pedra logo tacharam minha intenção de “complexo de vira-lata”, classificando minha posição de “colonialista”, postura de quem é afligido por um senso de inferioridade.

Em outra rede social, chamaram-me de “retrógrado” simplesmente porque destaquei um texto que abordava as boas práticas do ensino formal nas Filipinas, referência em educação para o mundo.

É interessante notar que, de alguma forma, meus algozes escorregaram na casca da banana: o primeiro “copiou” uma frase de Nelson Rodrigues (1912-1980), e o segundo me inspirou a compor um poema cujo título reproduz a sua suposta ofensa.

Refeito das pedradas, resolvi checar o significado dos termos. E constatei que meus “amigos” exageraram em minha desqualificação. Passei então a prestar mais atenção nessa coisa de copiar o que consideramos bom ou positivo numa pessoa, numa cidade, ou mesmo num extraterrestre.

E aí pensei numa paráfrase para um adágio bem antigo: “copiar é preciso, viver não é preciso!”.

As sociedades antigas evoluíam à medida que copiavam o que viam de eficaz nas outras. E isso se deu principalmente na agricultura, na tecnologia, no comércio. E até na guerra! Não dá pra imaginar que tudo o que existe numa sociedade é genuinamente criação dessa sociedade. Quem inventou o martelo? E a enxada? Não sei. Só sei que estes equipamentos são usados no mundo todo desde que o mundo é mundo. Até as sociedades mais fechadas, como as orientais, abriram suas fronteiras culturais para copiar o que lhes interessava. Mesmo sem nunca ter ido a Tóquio, qualquer pessoa percebe as semelhanças entre esta cidade e Nova Iorque.

Já imaginou se nenhum outro povo copiasse a invenção dos sumérios e não visse a necessidade de incorporar a escrita à sua cultura! Ou se nenhuma outra sociedade se interessasse pelos computadores ou pela Internet, deixando essas duas invenções apenas com os norte-americanos!

A Bíblia de Genebra revela que a copiar pode ter inspiração divina: “(…) desde que os mitos da criação eram básicos nas religiões pagãs, é natural que Moisés tivesse incluído um relato da criação em oposição aos mitos pagãos”.

Aprendemos nos livros de literatura que nossos escritores, por muito tempo, copiavam tudo o que era novidade da Europa. Em alguns casos, até de forma exagerada. Copiaram, copiaram, até que resolveram também criar a sua literatura, com as cores tupiniquins.

E para desmistificar o verbo copiar, que tal substitui-lo por “aprender”, termo mais adequado para as patrulhas do politicamente correto?

E assim, para meu deleite, encontrei na revista ÉPOCA de 10 de julho um artigo de Walcyr Carrasco, jornalista e autor de livros, peças teatrais e novelas de televisão, cujo título trazia a seguinte pergunta: “O que temos a aprender com Portugal?”

Recém-chegado de uma viagem a Lisboa, o autor trouxe em sua bagagem as melhores recordações. Da segurança, da descriminalização do uso de drogas, do turismo. E apressou-se em compartilhar essas impressões com seus leitores, sugerindo-nos que “aprendêssemos” com o exemplo português.

Uma de suas observações parecia feita para a nossa cidade: “Há outra ideia genial. Ninguém pode deixar um prédio antigo, tombado, ao abandono. A prefeitura intervém. Há um leilão. O novo proprietário pode reformá-lo por dentro, de maneira moderna. Bota elevadores, muda a planta dos apartamentos. Mas o exterior deve ser restaurado. Como se faz com Paraty, no litoral do Rio de Janeiro”.

Aproveito essas observações para deixar aqui uma ideia aos nossos vereadores: aprovar uma lei que financie a viagem do prefeito eleito (antes da posse) a algumas cidades-modelo (dentro ou fora do Brasil) para que conheça seus projetos mais interessantes e inovadores. O objetivo seria copiar, ou melhor, aprender técnicas mais avançadas sobre gestão municipal, e adaptá-las à nossa realidade.

Quando fui presidente da organização binacional Companheiros das Américas (1992-1994), promovi diversas viagens entre Pittsburgh (Pensilvânia, E.U.) e São Luís. Médicos, professores, estudantes, técnicos de basquetebol e de futebol visitaram sua cidade-irmã para ver, entender e aprender sobre projetos técnicos ou sociais. Desse intercâmbio nasceu a clínica de olhos do Centro de Saúde da Vila Palmeira. E quase nascia um sistema de alerta (via rádio) sobre enchentes para as cidades cortadas por rios.

Copiar pode ter aspectos negativos. Nas artes, por exemplo, é simplesmente repugnante. Porque arte é criação. Na literatura, é aceitável inspirar-se em alguém (estilo), mas não muito elogiável copiar um escritor. Em seu Ofício de Escrever (Ed. Anfite Atro), Frei Betto revela que Machado de Assis “teria buscado em Otelo inspiração para criar o personagem Bentinho, do romance Dom Casmurro”.

E na ciência, como é vista essa questão?

É exatamente o contrário. Os cientistas adoram expor ou divulgar suas descobertas. Parece uma questão de honra, e de vida, porque geralmente estão ligadas ao bem-estar das pessoas, da sociedade. Um laboratório só tem a exclusividade de uma fórmula por determinado número de anos. Depois todo mundo copia. O Viagra reinou absoluto por algum tempo, mas hoje tem a dura concorrência do Cialis, do Helleva, do Dejavú. Sem falar nos genéricos com a mesma composição química.

O jornalista Armando Nogueira (1927-2010), famoso pelas expressões criativas em suas crônicas esportivas, deixou-nos esta pérola: “Copiar o bom é melhor que inventar o ruim.” Seguido essa raciocínio, o químico francês Lavoisier (1643-1727) bem que poderia enunciar, de forma filosófica, a sua Lei da Conservação das Massas da seguinte forma: “Na natureza nada se inventa, nada se cria, tudo se copia”.

“O exemplo de Portugal serve para nós, brasileiros?” pergunta Carrasco em seu ensaio.

Sem constrangimento, repito a sua própria resposta: Ah, serve sim!

 

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