A MALDIÇÃO DA VÍRGULA

Eloy Melonio *

Os sinais gráficos, muito comuns na linguagem escrita, auxiliam a vida de muitas pessoas: escritores, advogados, jornalistas, estudantes e leigos. Ou seja, de todo aquele que precisa escrever relatórios, trabalhos escolares, e-mails, entre outros tipos de textos. Parece algo sem muita importância, mas, quando mal colocados, esses sinais podem causar grandes problemas à clareza da comunicação escrita.

Dentre eles, um me parece o mais violado. Estou falando da “vírgula”. Usá-la ou não é um dilema que sempre deixa atônitos os produtores de textos. Um antigo manual de redação de uma grande editora nacional lembrava: “Quando bem-empregadas, (as vírgulas) contribuem para dar clareza, precisão e elegância às suas frases. Em excesso, provocam confusão e cansaço”. E ainda dava um recado valioso: “Frase cheia de vírgulas está pedindo um ponto”.

E assim a vírgula é provavelmente o que mais usamos. Não se escreve bem sem se recorrer aos seus préstimos. Mas como é aviltada! Como sofre nas mãos dos que não sabem fazer uso de suas propriedades! Imagine alguém lhe pedindo para fazer algo que não seja do seu ofício! Pois é isso o que acontece com a pobrezinha. Muitas vezes é jogada de um lado para o outro sem o menor critério. Fazem dela o que querem. Usam e abusam de sua disponibilidade. Mas, muitas vezes, é esquecida, menosprezada, mandada para onde não gostaria de ir.

O certo é que a vírgula reclama de duas coisas: do abuso e do descaso. Essa confusão já me incomoda há bastante tempo. Daí tirei alguns minutos para refletir sobre esse problema. Decidi sair em sua defesa. Porque a vírgula é generosa e confiável, sempre disponível para o que der e vier. Por isso não entendo por que as pessoas fazem-na de “otária” ou “burro de carga”.

Seria uma maldição? Não seria ela o calcanhar-de-aquiles de muitos escritores? Difícil responder. Para escrever este texto, por exemplo, precisei fazer consultas e revisões, principalmente ― perdoem-me a sinceridade ― por causa da “maldita” vírgula.

Uma coisa é certa: não dá para fugir das vírgulas. Abro o jornal, lá estão as coitadinhas. Vou para os livros, vejo-as geralmente bem-comportadas. Nos anúncios publicitários, espremidas, como uma débil plantinha entre ervas daninhas. Nas redes sociais, em precário estado de lucidez.  Lembro-me agora que até no Guia do Estudante de minha faculdade fizeram-na passar vexame, sujando a beleza gráfica do livreto. E por fim, encontro-as, amontoadas, em toda parte no meio de um emaranhado de palavras.

Já imaginou se a vírgula se revolta e deixa de comparecer aos nossos textos?! Que seria dos aficionados pela arte de escrever? Suas ideias teriam o mesmo sentido? E os leitores? Poderiam ler como se estivessem ouvindo a voz do escritor?

Nem pensar! Sem a vírgula, nossos textos não teriam o mesmo sentido. Destarte, é dever de quem escreve valorizar “a vírgula nossa de cada dia”. Precisamos tanto dela que, antes de eu começar a escrever esta crônica, peguei uma folha com as regras para o seu uso. E, a todo instante, via-me “pescando” dicas para empregá-la corretamente. E mais: vez por outra, deparo-me com erros, vaciladas. E penso: Como pude cometer este erro?! Então descubro o quanto tenho a aprender com ela e como preciso aprofundar nossa intimidade.

Desencantada, a pobre vírgula, espera um dia ser mais respeitada.

“Opa!”, minha “vírgula-da-guarda” me cutuca, mostrando-me que acabei de meter a pobre criatura numa encrenca. Cometi um gravíssimo crime gramatical, um erro crasso. Usei-a para separar o sujeito do verbo, exatamente a vacilada que mais me incomoda com relação ao seu uso.

“Tá bom, vou consertar” ― prometo decepcionado. “Não”, replica a angelical entidade gráfica. “Deixe-me lá para alertar os desatentos e despreparados. Quem sabe aprendam a evitar o mais elementar dos erros”.

Que alívio! Ainda bem que a vírgula aguenta com resignação essas agressões. Já pensou se ela resolve reagir tal qual nossa querida Alcione: “Não sei se vou aturar esses seus abusos / Não sei se vou suportar esses seus absurdos”.

Felizmente a vírgula já provou que é gente fina: tolerante, paciente, compreensiva.

Viva a vírgula!

* Eloy Melonio é professor de inglês, poeta e compositor

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